Esta vida ensina-nos tudo, de bom e mau. Nem tenho mais palavras para acrescentar substância ao que aconteceu, deixo-vos aqui um excerto da participação que fiz na Polícia Judiciária.
Dia 8 de Julho de 2011, sexta-feira – o meu cão desapareceu de Azeitão.
Dia 11 de Julho de 2011, segunda-feira – após buscas nas redondezas, decido accionar as seguintes medidas relativamente ao desaparecimento do meu cão:
- Informar as bases de dados de animais desaparecidos SICAFE (Sistema de Identificação de Canídeos e Felinos) e SIRA (Sistema de Identificação e Rastreamento Animal) sobre o desaparecimento do Lobito
- Registar o desaparecimento no site http://www.encontra-me.org/; o anúncio está em http://www.encontra-me.org/anuncio/15604
- Difusão do desaparecimento para familiares e amigos através de correios electrónicos, SMS, redes sociais (Facebook) e impressão de cartazes espalhados num raio de 20 km.
- Visitas aos canis do concelho de Palmela, Setúbal e Seixal no sentido de verificar que cães foram recolhidos neste período
- Visita às instalações da Brisa em Coina, de forma a verificar que cães foram recolhidos na auto-estrada A2.
Dia 20 de Julho de 2011, quarta-feira – Marcação de anúncio publicitando o desaparecimento do Lobito e oferecendo recompensa no jornal Correio da Manhã e no jornal Ocasião.
Dia 22 de Julho de 2011, sexta-feira – publicação do anúncio no jornal Correio da Manhã, e recebimento de várias chamadas com informações sobre cães semelhantes ao Lobito. Uma destas chamadas (967 839 514) foi feita por uma senhora que intitulava D. Maria, e que informava que o seu marido tinha visto no jornal um cão parecido ao que ela viu na casa do seu patrão, Dr. Abreu, na zona de Azeitão. Deu-nos o número de telemóvel do patrão, para quem deveríamos ligar sem dizer que tinha sido ela a informar, visto que poderia perder o emprego. Além disso deveríamos ligar à hora de almoço devido à indisponibilidade do patrão durante a manhã (estaria a dar consultas) e antes do final da tarde, pois iria de férias para os Açores nesse mesmo dia às 20:30 e não voltaria antes de 15 de Agosto. Num primeiro telefonema (910 832 082) eu identifiquei-me e perguntei pelo cão, explicando o porquê das minhas perguntas; o senhor disse que tinha recolhido um cão que encaixava com a descrição, mas que precisava de falar com a mulher. Num segundo telefonema, informou-me que se eu queria o cão deveria pagar 120€ pelas despesas incorridas (alimentação, veterinário, casota). Qualquer sugestão feita por mim de forma a poder confirmar se era de facto o meu (deslocar-me à sua casa, a empregada mostrar-nos o cão, mandar-me um mail ou SMS com uma fotografia do cão em questão) foi negada, sendo que a única possibilidade seria eu deslocar-me ao “hospital da Amadora” para ver uma fotografia do cão em questão no telemóvel do senhor; deveria chamar procurar na recepção pelo “Dr. Abreu, do coração”. Durante a tarde deste dia desloquei-me ao hospital Amadora-Sintra, estive no departamento de cardiologia, nas urgências, comprovei que trabalha aí um Dr. Abreu, director do serviço de cardiologia, mas que este não se encontrava à tarde no hospital. Liguei muitas vezes para o número do senhor, sem nunca ser atendido, pelo que me desloquei ao aeroporto de Lisboa por volta das 20:00 de forma a poder encontrar-me com ele antes de ir de férias. Pude comprovar no aeroporto que o último voo para os Açores tinha saído por volta das 19:00. O telemóvel do senhor esteve ligado até às 21:00, hora da minha última chamada nesse dia.
Dia 23 de Julho, sábado – A D. Maria contacta-nos de manhã, dizendo que o patrão não lhe tinha dito nada e que deveríamos ligar para ele para acertar os pormenores de entrega do cão. Após este telefonema liguei novamente ao senhor, que explicou que saiu tarde do hospital porque “estava na sala de operações nas urgências numa operação complicada”. Disse-me que se eu fosse uma pessoa de confiança, deveria fazer uma transferência bancária para um NIB que me iria disponibilizar, e que de seguida ele daria ordem à empregada (D. Maria) para me levar o cão. Neste momento eu informei o senhor que sabia que toda esta situação era uma burla, que o iria denunciar à Polícia Judiciária e terminei a chamada.
Questões que me levantaram desconfiança na burla:
- O saber de antemão, através do site http://www.encontra-me.org/, de outros testemunhos e chamadas de atenção para burlas tentadas com as pessoas que tentam encontrar o seu animal de estimação, aproveitando-se da vulnerabilidade destas pessoas;
- O sotaque cerrado do norte do “Dr. Abreu”, e a forma pouco profissional como se referia ao seu trabalho: doutor do coração em vez de cardiologista, “procure por mim na entrada”, “estava na sala de operações das urgências numa operação complicada”;
- A indisponibilidade para me mostrar o cão e um discurso dissonante da maioria das pessoas que têm e gostam de animais. Após um mês em que contactei com muita gente é possível perceber através do discurso o tipo de relação que as pessoas têm com os animais de estimação e a forma desinteressada como a maioria tenta ajudar;
- Não existem voos do aeroporto de Lisboa para os Açores à sexta-feira às 20:00;
- Após muitos contactos e pedidos de informação feitos por mim não foi encontrado nenhum Dr. Abreu a morar em Galeotas, Azeitão;
- Existe de facto um Dr. Farto Abreu, director de cardiologia no hospital Amadora-Sintra, com um consultório na Parede e trabalhando também no hospital CUF Descobertas (todas estas informações foram recolhidas através de pesquisas na internet, onde existem inclusivamente fotografias do Dr. Abreu). Não é provável (apesar de possível) que uma pessoa com este perfil de vida profissional more em Azeitão;
- A história relatada pela “D. Maria” só foi confirmada pelo “Dr. Abreu” e vice-versa, não sendo encontradas pessoas ou fontes de informação independentes que pudesse corroborar testemunhos ou intenções;
- Os números de telemóvel acima referidos e, que abaixo volto a listar, estão sempre desligados, e nunca devolvem as mensagens ou chamadas:
- “Dr. Abreu”: 910 832 082
- “D. Maria”: 967 839 514
- Esta tentativa de burla já foi reportada por outras pessoas no site http://www.encontra-me.org/ e na Polícia Judiciária.