Vai fazer amanhã uma semana que o Lobito desapareceu. Cão malvado e resiliente, tanto fez e desfez que se conseguiu livrar do mosquetão grilheta, saltou o muro da casa de Azeitão e fugiu. Anda por aí, com uma coleira vermelha, não sabemos se atrás de cadelas, no meio de outros cães, ou com um destino menos alegre.
Já muita coisa me passou pela cabeça, de passado, presente e futuro. O Lobito sempre esteve comigo, desde o nascimento da minha filha, o crescer connosco, o obedecer à Leonor de três anos, o ser tratado como parte da família. Ser o filho mais velho. No presente, fazia sempre parte do futuro; sabíamos da sua gulosice, há meses que antecipávamos com deleite a reacção depois do nascimento do Migalhinhas; contávamos com precisão e deleite a quantidade de milímetros entre a sua boca e as colheres de papa que o Migalhinhas vai comer, juntamente com o seu bafo de cão rafeiro.
No meio disto tudo, veio-me à memória a estória do elefante de circo. Bicho agrilhoado desde cria, desiste de lutar contra a corrente que o prende. Por isso o vemos nos espectáculos de circo, preso por uma pequena lingueta de ferro, que desistiu de contrariar, conformado com a sua sorte.
Porque me lembro do Lobito? O meu cão tem nove anos, é um cão privilegiado na comida, no veterinário, no amor que lhe damos. Mas isso não lhe chega, ele tem uma natureza livre que o impele, dia após dia, para o espaço livre, com todos os riscos que isso acarreta. E todos os dias tentou, muitos conseguiu, andar com um sorriso no focinho que lhe conhecíamos bem, por esses campos fora, muitas vezes a fazer disparates.
Mesmo ausente, o meu cão continua a ensinar-me coisas; já o usei como referência no meu trabalho, na minha vida pessoal, nas piadas para quebrar gelo, em ensinamentos de vida. E esta loucura do Lobito, de procurar a liberdade, largar tudo para trás porque lhe está no sangue, diz-me muito. Abre-me os olhos, sobre a chama interior, o dia-a-dia, a nossa acção contra o desgaste de correntes, grilhetas, limites. O Lobito, com a sua fuga, pulveriza prioridades, agendas, o politicamente correcto, o que “é melhor para nós”. Não é a loucura que valorizo no meu cão, mas sim a sua capacidade de se superar, de tentar sempre.
Sinto falta do meu cão.
Importante: mais detalhes sobre o desaparecimento do Lobito estão em http://www.encontra-me.org/anuncio/15604
Qualquer informação é bem-vinda, recebida pelo site atrás referido, por este blogue ou directamente comigo. Obrigado.
